Perfumes de nicho florales frente a amaderados

Perfumes de nicho florais vs. amadeirados

A forma mais fácil de explicar um perfume é dividir o mundo em dois: ou é floral, ou é amadeirado. Funciona como funcionam os mapas escolares dos climas — serve para começar, mas deixa de fora tudo o que é interessante.

A perfumaria reorganizou-se há algum tempo. Já há florais que duram doze horas e amadeirados que abrem com frescura cítrica. A fronteira entre as duas famílias deixou de ser um muro e tornou-se numa zona em que acontecem coisas. Esta leitura aspira a uma coisa concreta: quatro perfumes em catálogo que vivem nessa zona, dois de cada lado, todos com o cliché da sua família quebrado.

O que é realmente um floral hoje

O estereótipo diz: leve, feminino, efémero. Isso era verdade quando os florais eram construídos sobre bases de almíscar branco. Mas na perfumaria de nicho, o perfume floral vem carregado: jasmim indólico, tuberosa absoluto, rosa absoluta turca, matérias que pesam tanto como uma resina e duram tanto como uma madeira.

O truque está na construção. Uma rosa sobre uma base de musk branco desaparece em uma hora. A mesma rosa sobre cedro, âmbar e um toque de pimenta pode aguentar dez. O que muda não é a flor — é o solo onde está plantada.

O que é realmente um amadeirado hoje

O cliché contrário é igualmente injusto. Amadeirado associou-se a escuridão, densidade, âmbar e oud. Mas a categoria inclui perfumes que abrem com verde herbáceo, com cítrico mineral, com coisas que não parecem amadeiradas até a secagem levar uma hora.

O Vetiver, por exemplo, é uma raiz — mas um Vetiver bem tratado pode cheirar a erva cortada, a corda molhada, a tinta. E um cedro pode ser torrado e doce ou frio e quase metálico. A palavra "amadeirado" esconde uma variedade enorme.

Dois florais que não são leves

Pas Ce Soir — BDK Parfums. Uma criação da casa parisiense que quebra o cliché do floral diurno: uma explosão floral construída sobre baunilha, âmbar e fava tonka. A sensação inicial é opulenta, quase gourmand; a secagem deixa um rasto denso que fica no casaco até o guardares. Funciona no outono, no inverno, em jantares à noite. Nunca funciona como "um toque leve".

Rose Magnetic — Essential Parfums. Sophie Labbé constrói aqui uma rosa moderna sem xarope e sem nostalgia. É a rosa servida sobre almíscares abstratos e uma madeira lateral; o resultado é uma rosa que se projeta para fora com uma densidade que lembra mais um perfume amadeirado do que um floral tradicional. Para quem pensava que a rosa era um perfume de cartão de aniversário.

Dois amadeirados que não são densos

Mon Vetiver — Essential Parfums. Bruno Jovanovic assina aqui uma das leituras mais limpas do Vetiver do catálogo. A raiz mantém-se reconhecível — terrosa, ligeiramente fumada — mas o coração abre com frescura herbácea e a base mantém-se transparente. É um amadeirado que se pode usar em julho sem o suar.

Viride — Orto Parisi. Alessandro Gualtieri constrói Viride em torno da tradição iemenita de se adornar com plantas aromáticas: artemísia amarga, madeira verde, uma intensidade herbácea que não chega a ser nem floral nem amadeirada no uso comum. É um perfume que põe a categoria à prova: os puristas chamar-lhe-ão amadeirado pela base, os hereges dirão que é algo novo. Os dois têm razão.

Para terminar

A pergunta não é "floral ou amadeirado" — é "o que queres que aconteça na tua pele durante as próximas oito horas". Uma rosa de Sophie Labbé e um Vetiver de Bruno Jovanovic, no mesmo dia e em peles diferentes, podem parecer-se mais entre si do que um Pas Ce Soir e outro perfume floral que se evapora em quarenta minutos. A taxonomia é útil. A pele é que decide.

Deixe um comentário

Observe que os comentários precisam ser aprovados antes de serem publicados.

Este site está protegido pela Política de privacidade da hCaptcha e da hCaptcha e aplicam-se os Termos de serviço das mesmas.