Há uma palavra francesa que a perfumaria em espanhol adotou tal e qual: sillage. Significa rasto — a trajetória que um barco deixa na água, a marca que fica no ar depois de passar uma pessoa perfumada.
As pessoas confundem rasto com potência. Não são a mesma coisa. Há perfumes que entram como um murro mal entram numa sala e desaparecem vinte minutos depois: muita potência, zero rasto. E há perfumes que entram sem dares por isso, e duas horas depois a pessoa que se senta onde estavas pergunta que cheiro é aquele: pouca potência, muito rasto.
O segundo é o difícil. E o segundo é o que aqui nos interessa.
Como se constrói um rasto
Para que um aroma deixe rasto, é preciso cumprir duas condições: a base tem de estar carregada com matérias que demorem a evaporar — resinas, madeiras pesadas, âmbar cinzento, certos sintéticos como o Ambroxan ou o Iso E Super — e a fórmula tem de pulsar em vez de esmagar. Um perfume que pulsa vai e vem no ar, faz-se presente e desaparece, volta. É isso que faz com que uma pessoa repare nele duas horas depois.
Esse pulso depende muito da concentração e do trabalho do perfumista. Por isso os Extrait — versões a 25%, 30% e até 40% — costumam ter um rasto maior do que a versão EDP do mesmo perfume. Não porque "duram mais" no sentido quantitativo, mas porque o ar à volta de quem o usa está mais carregado durante mais tempo.
De seguida, quatro propostas no catálogo. Cada uma com um rasto diferente.
O rasto marinho e escuro: Megamare, Orto Parisi
Se há uma casa especializada em rasto bestial, é Orto Parisi. Alessandro Gualtieri — o perfumista por trás de Nasomatto e Orto Parisi — constrói as suas fragrâncias pensadas para encher espaços. Megamare é provavelmente o mais conhecido do catálogo: um aquático amadeirado, salino, escuro, pensado como tributo ao oceano do sul de Itália.
Um só spray é suficiente no exterior. Dois em interiores já é demais. É esse tipo de perfume nicho.
O rasto vulcânico: Terroni, Orto Parisi
Mesma casa, registo oposto. Onde Megamare é água e sal, Terroni é terra e lava. A inspiração, segundo Gualtieri, é o solo vulcânico do sul de Itália onde cresceu. É um amadeirado oriental denso, quente, sem notas de topo no sentido convencional — entras diretamente no fundo, e o fundo fica contigo.
Para invernos. Para casacos de lã. Para pessoas que gostam que a presença se anuncie.
O rasto quente: Sundowner, Andy Tauer
Andy Tauer trabalha desde Zurique com matérias-primas naturais e formula quase tudo em pequenas quantidades. Sundowner é uma das suas peças com mais rasto: citrinos no início, cacau e tabaco no coração, sândalo, fava tonka, âmbar cinzento e baunilha no fundo.
É um perfume que evoca um terraço ao fim do dia com uma bebida fumada na mão. O rasto é quente sem ser pesado — o tipo de rasto que as pessoas descrevem como "a bom cheiro", sem saber muito bem a quê.
O rasto elegante: Bois Impérial Extrait, Essential Parfums
Para fechar, um contraste. A versão Extrait de Bois Impérial — duplicada em concentração em relação ao EDP — é um caso interessante de rasto controlado. Não enche salas; envolve quem o usa. Mas envolve forte. Pimenta-preta e fruto de Timut no topo; rosa absoluta no coração; cedro do Atlas, couro, bálsamo de abeto e ládano no fundo.
É o rasto de um perfume que sabe que não precisa de se impor para que se lembrem dele.
Para terminar
O rasto perfeito não existe — existe o rasto adequado. Megamare num jantar íntimo seria um erro. Bois Impérial Extrait num concerto ao ar livre, demasiado discreto. O bom de ter quatro frascos diferentes é não ter de forçar um a fazer o trabalho dos outros três.
